"É assim mesmo - eu disse. - O mundo fora da minha cabeça tem janelas, telhados, nuvens, e aqueles bichos brancos lá embaixo. Sobre eles, não te detenhas demasiado, pois correrás o risco de transpassá-los com o olhar ou ver neles o que eles próprios não vêem, e isso seria tão perigoso para ti quanto para mim violar sepulcros seculares, mas, sendo uma borboleta, não será muito difícil evitá-los: bastará esvoaçar sobre as cabeças, nunca pousar nelas, pois correrás o risco de ser novamente envolvida pelos cabelos e reabsorvida pelos cérebros pantanosos e, se isso for inevitável, por descuido ou aventura, não deverás te torturar demasiado, de nada adiantaria, procura acalmar-te e deslizar para dentro dos tais cérebros o mais suavemente possível, para não seres triturada pelas arestas dos pensamentos, e tudo é natural, basta não teres medos excessivos - trata-se apenas de preservar o azul das tuas asas."
"as pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra. há os níveis-não-formulados, camadas imperceptíveis, fantasias que nem sempre controlamos, expectativas que quase nunca se cumprem, e sobretudo emoções. que nem se mostram."
"(...) Quanto a ti , já reparaste como o mundo parece feito de pontas e arestas? Já chamei tua atenção para a escassez de contornos mansos nas coisas? Tudo é duro e fere. Observo, observas como ele se move sem choques por entre os gumes. Te parece dócil, assim sinuoso, evitanto toques que possam machucá-lo? Pois a mim parece falso, conheço bem suas tramas e sei de todas as vezes que concedeu para que o de fora não o ferisse. Olha, ouve e repara: essas sinuosidades são de cobra, não de ave. (...)"
Conto Eu, Tu, Ele - Morangos Mofados
"Se meus olhos fossem câmeras cinematográficas eu não veria chuvas nem estrelas nem lua, teria que construir chuvas, inventar luas, arquitetar estrelas. Mas meus olhos são feitos de retinas, não de lentes, e neles cabem todas as chuvas estrelas lua que vejo todos os dias todas as noites."
"Era coração, aquele escondido pedaço de ser onde fica guardado o que se sente e o que se pensa sobre as pessoas das quais se gosta? Devia ser."
"Mania de esperar que as coisas sejam dum jeito determinado, por isso a gente se decepciona e sofre."
"Fico pensando que nunca mais vai se repetir, é só uma vez, a única, e vai me magoar sempre."
"Repetir mil vezes: não quero esperar. E a certeza de que esse não querer já traz implícitas as longas caminhadas."
"Mas indiferente à distância dele, quase violento, de repente queres violar com tua boca ardida de álcool e fumo essa outra boca ao teu lado. Desejarás devendar palmo a palmo esse corpo que há tanto tempo supões, com essa linguagem mesmo de história erótica para moças, até que tua língua tenha rompido todas as barreiras do medo e do nojo, subliterário e impudico continuas, até que tua boca voraz tenha bebido todos os líquidos, tuas narinas sugado todos os cheiros e, alquímico, os tenha transmutado num só, o teu e o dele juntos - luz apagada, clichê cinematográfico, pelas brancas de roupa cintilando jogados ao chão."
"Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia."
"Seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos - emoções."
"De repente,eu não conseguia ir adiante.E precisava:sempre se precisa
ir além de qualquer palavra ou de qualquer gesto."
"- ... Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãos agora.
- Eu?
- Eu.
- Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem."
"Não chegaram a usar palavras como especial, diferente ou qualquer outra assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las."
"(...) Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui. Só sei que dentro de mim tem uma coisa pronta, esperando acontecer. O problema é que essa coisa talvez dependa de uma outra pessoa ara acontecer.
- Toque nela com cuidado - disse Santiago. - Senão ela foge.
- A coisa ou a pessoa?
- As duas."
"Têm muitas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí, sabia?"
"Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Porque nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo 'clima', certa 'preparação'. Certa 'grandeza'.
Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo 'eterno') cotidiano. A morte de alguém conhecido e/ou amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o amor. Porque o amor, como a morte, também existe - e da mesma forma dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte - pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) - nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade."
¨A solidão às vezes é tão nítida como uma companhia.Vou me adequando,vou me amoldando.Nem sempre é horrível.às vezes é até bem mansinha.Mas sinto tão estranhamente que o amor acabou.(...)Repito sempre:sossega,sossega - o amor não é para o teu bico.¨
"Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."
"— Não vou perguntar por que você voltou, acho que nem mesmo você sabe, e se eu perguntasse você se sentiria obrigado a responder, e respondendo daria uma explicação que nem mesmo você sabe qual é. Não há explicação, compreende? Eu também não queria perguntar, pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão, mas não é, sei que não é, você também sabe, pelo menos por enquanto, talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que um silêncio basta? É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão? Só vou perguntar por que você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo."
domingo, 25 de outubro de 2009
terça-feira, 13 de outubro de 2009
E eu andava pensando no quanto você me faz bem. E o fato do verbo fazer estar conjugado no tempo presente me faz até mal. Não sei se você me entende, acho que nem posso pedir isso. mas você deveria ser uma peça do passado, no entanto é incrível como você parece fazer cada dia mais parte do meu presente. E eu não quero isso. Não agora, não assim. Por favor espera um pouco mais, mas não saia daqui. Não. Eu não quero que você saia. Você não entende? Como não? Não é que seja simples, mas é que você é uma parte tão necessária dessa loucura que eu achei que fizesse parte conscientemente, não faz? Então me desculpe se falei coisas demais, se eu ajo estranho demais, se às vezes sou grossa demais, se eu não soube aproveitar a chance que tive. Tá bom eu admito! O erro foi meu?! Não tenha tanta certeza, baby. Eu prefiro acreditar nesse tal de destino, sabe? Isso você entende, né? Como naõ? Porra você é burra? Eu te amo. Queria ouvir isso? Tá feliz? Eu te amo desesperadamente e não sei desfazer isso.! Me ensina vai. Me ensine com a mesma insistencia que tentou me ensinar a conviver com você e a conciliar nossas confusões! Tente, meu bem! Vai fundo. Tenta e tenta! Você é forte, eu sei que é... Eu só queria saber se de fato ainda é minha! Ah você também não sabe? Então pára com seu jogo tolo que é por ele que estamos aqui discutindo, caso contrário estaríamos tão juntas que se brigássemos machucaríamos a nós mesmas. Entenda que eu só puxei o último fio da costura desfeita. Eu só disse o acabou. O resto? Fizemos juntas ;)
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