terça-feira, 20 de julho de 2010

Feliz dia do Amigo


Olhei pela janela, logo cedo, havia sol. Um sol brilhante como há muito tempo não via, nem sequer imaginava. Olhei de novo, quase não acreditei. Devo admitir que embora não goste muito do sol, ele me alegra quando surge de repente e convidativo, como hoje. Tomei um banho, uma xícara de café, tentei ler o jornal e desisti com a capa: Menino morre de bala perdida em escola. Levantei, olhei o relógio e descobri que hoje, excepcionalmente, eu estava com duas horas livres antes do trabalho. Então decidi checar os emails e fiquei abismada com um em especial, quase escondido no meio de tantos outros. Um email de ‘Feliz dia do amigo’, da minha melhor amiga de infância que há tempo tempo não via e nem ao menos me recordava conscientemente. Foi nesse momento que percebi que a vida corrida dos adultos os afasta, além do necessário, para uma solidão estranha. A vida corrida não, a cabeça cheia, na verdade. Afinal, hoje eu tenho tempo. E justo no dia vinte de julho, eu tenho tempo. Tempo para um email, pelo menos. Quem sabe, se tivesse pensado um pouco antes, para um café entre amigas-que-há-muito-não-se-veêm. Mas a minha cabeça cheia fez com que, ao olhar o calendário, notasse apenas que a primeira reunião do dia seria mais tarde. É engraçado como há muito tempo atrás, alguns quinze anos, mais ou menos, as prioridades eram outras. Eu deixaria qualquer coisa pelas minhas amigas. E hoje, deixo minhas amigas por dinheiro, mesmo que inconscientemente. Existem muitas coisas que o dinheiro compra, mas felizmente, vinte e cinco anos de amizade não é uma delas. Peguei o telefone e cancelei a super reunião, um dia a menos de pessoas chatas não me mataria. Liguei pra um telefone que conseguiu demorar uma década, pelo menos para mim, para que desse três exatos toques, e do outro lado da linha uma voz conhecida e muito confortável atendeu em tom de surpresa:
- Lu?
-Oiii, vaca! Que tal um dia de meninas hoje?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Passeio no mundo alheio


Gosto de imaginar que as pessoas são as águas de um rio e eu a margem. Elas passam e seguem seu rumo para que outras passem por mim novamente, podem voltar mantendo o ciclo, ou condensar em outro rio, ou oceano. Plano de vida maior ou menor. Não vejo o fim do meu. Quando sou água de outras margens, gosto de encontrar pedras, elas me prendem e dificultam a minha passagem, me mantendo mais um tempo ali, até que o ciclo se repita para mim também. ‘O se repetem não são as pessoas e sim as situações’. O céu anda escuro e o meu organismo está se moldando para combinar com ele sem que eu permita. Acabo de me dar conta: Ando cinza como o céu, fumaça, poluição, nuvens negras... No atual segundo me encaixo nesse mundo, apenas nesse segundo. Estou em completa harmonia com a ausência de cores, ou com a mistura de todas elas, estou chovendo por dentro. Estou sujeita à vontades desconhecidas como o poder do tempo, minhas próprias vontades. Não tento me entender, tento me encaixar. Sou passageiro desse lugar, me enquadro nele quando não há muito amarelo. Gosto de chuva, gosto de vento frio e de pessoas com sono e caladas, fechadas em seus mundos, sem atrapalhar a minha órbita e o meu passeio, gosto de energias que não chegam a mim, gosto de distância e calmaria externa, uma vez que a gritaria mundana não permite que eu ouça o meu escândalo interno. Não quero carinho, não quero amor. Quero silêncio, um livro, alguns cães, vento frio, chuva e cinza. Não suporto mais todas essas cores vazias desses sorrisos falsos, não suporto mais esses gritos alegres que à noite se tornam gritos de solidão. Fim de passeio. Está clareando. Volto para o meu mundo.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

País do futebol.


O egoísmo é uma parte fundamental da formação psicológica humana. Hoje assisti à uma prática nacional de tal sentimento. Ao perder o jogo contra a holanda toda a nação brasileira parou, pois neste momento éramos uma nação unida em busca do hexa-campeonato, entretanto o que vi por tras de rostos da burguesia brasileira, sujos de lágrimas foi apenas o egoísmo. Egoísmo porque quando se fala de futebol somos uma nação, mas quando há uma catástrofe natural numa região do país, como houve a pouco tempo no nordeste, vemos uma sociedade esfacelada e com imensas cicatrizes e feridas. Minutos antes do início da transmissão do jogo, pela Rede globo de televisão, a mesma divulgou a seguinte notícia: Um dos postos de arrecadação de ajuda para o nordeste não está funcionando devido ao desvio de roupas e mantimentos que não chegam ao seu real destino. Como logo em seguida iniciou-se a transmissão do jogo, o cidadão brasileiro não pôde dar a devida atenção à notícia, uma vez que, é claro, estávamos todos com o coração na mão, principalmente após o segundo gol da Holanda. Que país é este afinal? Pois bem, se não bastasse essa comoção nacional em torno de uma partida de futebol, onde não se decidem efetivamente vida ou morte de ninguém, ainda tivemos que ouvir a seguinte afirmativa de um dos comentaristas: O Felipe Mello envergonhou o Brasil com sua atitude violenta em campo. Justo o futebol brasileiro tão conhecido pela sua alegria. Concordo em gênero, número e grau. Entretanto não houve nenhum tipo de manifestação de crítica ou, pelo menos, questionamento em relação à essa atuação vergonhosa por parte de outros brasileiros, porém não famosos, que estavam roubando mantimentos de pessoas em atual estado de miséria devido a uma enchente. E porque não houve? Bem, com a eleição batendo à porta, fica ainda mais óbvio que o cidadão brasileiro acomodou-se diante da realidade da própria política e vêm trazendo isso de forma clara e indiscutível para sua vida diária. Roubo à população mais carente virou só mais uma noticía cotidiana diferentemente de uma derrota do Brasil para a Holanda. Cruzcifiquemos o Dunga, então, afinal não queremos perder a copa em 2014 em nosso próprio território. E deixemos os mesmos políticos corruptos governarem uma sociedade cega e/ou muito ocupada com a próxima copa. Afinal, somos o país do futebol, e pelo jeito que as coisas andam, acabaremos sendo conhecidos como o país de mudos submetidos às ordens de ladrões convincentes.